De um limão você faz uma caipirinha ou uma limonada?

Meu coração está machucado. A estória que vou contar hoje é difícil narrar sem que os olhos fiquem embaçados.  Bárbara (nome fictício a pedido dela) não tem um passado que gosta de se lembrar.
 
Seus pais casaram-se novos e tiveram quatro meninas, uma morreu aos nove anos de idade, ocasião onde seus pais se separaram. Bárbara não sabe dizer o motivo real da separação, na época tinha apenas três meses e ainda mamava peito, as duas outras estavam por volta de seus dois e três anos.
 
O fato é que sua mãe deixou suas filhas com o pai e se foi. Ainda apaixonado o pai imbuído de desgosto arrumou uma forma de documentá-las como filhas de mãe falecida. E assim cresceu Bárbara em Minas Gerais, até que na ocasião da celebração de seu aniversário de dez anos, enquanto preparava a festa, seu pai foi atingido por um raio e faleceu. E é justamente aí que nossa estória começa.
 
Como as crianças eram documentadas com mãe falecida, essa mãe necessitou lutar para conseguir provar o equívoco e obter a guarda das crianças. Conseguiu.

 

Você pensa, que bom, as meninas irão ficar com a mãe.
 
Nada disso. A mãe já tinha tudo planejado. A filha mais velha mandou trabalhar em uma casa de família onde ficaria e só a veria nos finais de semana. A do meio para a casa de um tio e Bárbara para a casa de outra tia.
 
Tia? Barbara tinha que acordar as cinco, comprar pão, colocar a mesa do café e se desse tempo comia antes de ir para escola. Se não desse, estômago vazio e dane-se. Na volta, preparar tudo para o almoço, colocar a mesa, arrumar a casa enquanto a família almoçava e se sobrasse comida almoçava, senão, dane-se novamente, e vá lavar a louça.
 
Barbara cresceu e passou a ter idade também para trabalhar em casa de família. Com isso volta para a casa da mãe já com emprego acertado. Passaria a semana no emprego, final de semana em casa e o salário todo para as mãos da mãe senão o couro iria comer.
 
O que restava para Bárbara? O óbvio. Tentar suicídio. E tentou, tentou indo parar em uma clínica que a receitou remédios. Muito bem, Bárbara volta, volta ao trabalho, mas a medicação a deixa lesada, como todo calmante.
 
Que lindo, ao ver sua filha lesada sua mãe a denuncia a polícia por uso de drogas. Tá bom pra você? A polícia interroga sobre as drogas, Barbara diz que não usa e pronto, vai para delegacia, pancada em cima de pancada, noite no xadrez, é enviada para o juizado que acaba por fim atestando que realmente a menina não usava nada. Barbara é devolvida para sua santa mãezinha que só a aceita de volta, pois Bárbara jurou que iria se casar.
 
Mamãe lava as roupas de sua filha separadas do restante da família para não contaminar, e diz todo o tempo a ela que não é mais moça. Já atormentada, Bárbara acaba decidindo não levar a fama sem deitar na cama e deixa de ser moça. Engravida. Mamãezinha quando descobre a expulsa de casa e Barbara passa a viver em um ponto de ônibus e pedir em botecos limão com sal, justificando desejo, para ao menos colocar algo no estômago. Novamente Bárbara é recolhida pelo juizado que nessas alturas já conhecia o caso e nem se dá ao trabalho de forçar a mãe a recebê-la.
 
 Quando Bárbara deu a luz, eram gêmeos.  Por isso não foi liberada imediatamente da maternidade, uma das crianças estava morta. Sua mãe vai à maternidade e pega a menina que sobreviveu na intenção de vender para uma família. Bárbara foge do hospital em busca de sua cria e mais uma vez conta com a ajuda do juizado. Nesse momento não tem mais idade para juizado de menores, e Bárbara e filha são encaixadas em um plano familiar onde mães que não tem onde morar trabalham de graça em troca de moradia.
 
Meses depois, mamãe querida se diz arrependida e pede para a filha voltar. Lógico, já com emprego arranjado para ela trabalhar e trazer grana para casa. Dessa vez não dura muito, pois logo a  dedicada mãe trata de expulsá-la mais uma vez. Só que nesse momento Bárbara possuía um dinheirinho para receber, pega a grana, a filha e um ônibus para o Rio de Janeiro.
 
Bastou chegar ao Rio.
Foi roubada e levaram até sua roupa do corpo. Porém apareceu quem lhe emprestasse um casaco, e a ajudasse a refazer a vida.
 
Hoje Bárbara assim como qualquer pessoa tem seus problemas. Mas nada se compara com seu passado. São problemas do dia a dia. Não é nenhuma mulher bem sucedida financeiramente, mas podemos dizer que sim é muito bem sucedida por estar viva. Por ter tido garra para enfrentar tudo e seguir viva.
 
Quando aqui exponho seu passado tenho a impressão que você leitor deve achar que estou inventando. Sim até tenho uma mente bem criativa, mas jamais criaria tamanha atrocidade. Apenas relato, pois pessoas como Bárbara estão aí a nossa volta e não sabemos. Porque andamos por aí reclamando que nossa vida está com problemas, estamos com saldo devedor no banco, discutimos com o marido ou com o chefe do trabalho. Quando chega o final de semana pegamos um limão e fazemos uma caipirinha. Ou uma limonada suíça. Nosso almoço não é limão com sal.
 
Barbara foi obrigada na vida ‘a pegar um limão e fazer uma limonada’. Será que temos o mesmo poder, ou reclamamos de tudo, cobrimos a cabeça, culpamos os outros, etc.?  Tudo que tenho a declarar é que Bárbara tem garra, e muita. E você?
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