Cubatão tem crepúsculo?

No final da década de oitenta, havia uma boate no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Copacabana chamada Crepúsculo de Cubatão.

Tal boate funcionava no térreo e subsolo e tocava rock inglês. Músicas, que geralmente não se ouvia em rádio alguma. Apenas certo gueto gostava e digamos que não era um gueto tão pequeno assim.

O negócio que para entrar no local não era tão fácil. Ah você deve estar pensando que eram super exigentes quanto à idade?

Nada disso. Com a vestimenta! Isso mesmo. Você tinha que fazer parte do esquema, estar no estilo da casa. Estilo que hoje popularizamos com Gótico, mas na época foi intitulado como dark.

Obviamente dark, afinal as pessoas se vestiam de preto. Elas não simplesmente iam escutar rock inglês, quase acreditavam que eram mesmo ingleses. Praia? Nem pensar! Era quase um palavrão. Necessitavam estar hiper brancas, vestir sobretudo preto e colares exóticos. Alguns iam além, usando coisas como véus no rosto e chapéu da vovó. O negócio era ser esquisito. E se a Norma (pessoa que ficava na porta) não gostasse do modelito, arrumava logo uma desculpa para barrar.

Mas o melhor mesmo era a forma de dançar: As pessoas dançavam consigo mesmas quando não dançavam com a parede (?!?). Você deve estar lendo isso e achar que estou inventando, não é?

Aviso e comunico que não, pois já dancei muito com a parede lá (risos).

Era divertido. Vários nomes do mercado saíram de lá e estão até hoje aí arrebentando. Alguns viraram DJs na TV, outros tocam em boates famosas. Mas ninguém está mais com a parede, isso é certo (risos novamente).

O melhor mesmo é pensar que tudo acontecia em pleno “Rio 40 graus, cidade maravilha da beleza e do caos”. Neguinho suando desesperadamente embaixo dessas roupas no calor infernal, sem perder a pose. Pessoas interessantíssimas, leitoras de grandes escritores e pensadores. Mas a regra era Londres e ponto final.

Até que um dia a banda The Cure resolveu vir ao Brasil. Pronto: Frissom total. Todos queriam ver… Capa de jornal etc e tal. E então a famosa foto. Robert Smith (vocalista descabelado da banda) apareceu de bermudão e camiseta jogando bola na praia. E agora José?! Londrino usa camiseta!!!!!!(risos – não dá pra ficar sem rir)

Acabou-se o que era doce, ou melhor, suado. O encanto/delírio foi desfeito.

Crepúsculo de Cubatão acabou virando outra boate chamada Kitchenet também muito boa, mas as pessoas acabaram relaxando quanto a todo o rigor. O público continuou o mesmo. Mas já podia usar vestido de alcinha (uffa), afinal Robert usou camiseta…

Me pego até hoje, mesmo tendo passado tanto tempo, pensando: Até onde as pessoas podem chegar?

Impressionante o esforço que é feito para impressionar. E o mais interessante: não se dão conta que estão completamente fora do juízo e ainda acham que são mais inteligentes que outras.

Sim, pois me incluo nessa. Eu me achava mais inteligente que o resto do mundo e ao mesmo tempo suava debaixo de um casaco (?!?). Que maluquice! Me diverti muito nessa época e de alguma forma todo aquele surto parecia sério, já hoje, sinto vontade de gargalhar de minha própria cara.

Resolvi dividir isso no blog, pois além do Crepúsculo ter sido um marco para a geração da época, mostra o quanto podemos ter a capacidade de viajar na maionese e não perceber.

Se for divertido está ótimo. Mas será que precisamos suar tanto?

Aproveito para publicar algo que escrevi nessa época (abaixo) e alertar: Cuidado com o aquecimento global mental. Viagem na maionese, pois é ótimo, mas tentem não cozinhar os miolos.

Vista enbaçada (Simone Sá Pinto, 1988)

Seus olhos me encontram quando tudo começa

Você duvida de mim por não me entender

Sou sua mãe, mas é você quem vai me criar

Seus olhos cheios de dúvida não te deixam perceber

Que serei sempre tudo o que você quiser ser

As lágrimas te embaçam a vista ao pensar em mim

O medo inunda seus olhos

E não pode me enxergar real

Entre trevas você me encontra porque me pintou assim

Seus olhos mergulhados no medo não lhe deixam enxergar

Que sou apenas uma ponte para tudo recomeçar

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