Os diferentes (Artur da Távola) – People Are Strange – The Doors

*** Por Simone Sá Pinto

Encontrei em meus guardados o texto abaixo de Artur da Távola. Ao reler senti que o texto deveria ser divido, e assim estou publicando no blog.

Não farei a parte de pensamentos, reflexões etc. como de costume, pois acredito que tudo isso já está contido no texto.

Publico como ilustração a musica “People Are Strange” com a banda The Doors, acredito (vendo a letra) que a mesma demonstra a visão de um ‘diferente’.

Segue letra traduzida da mesma, para os que não possuem o domínio da língua inglesa.

Os diferentes – Artur da Távola

Diferente não é quem o pretende ser. Este é um imitador do que ainda não foi imitado, mas nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns ‘mais’ e alguns ‘menos’ em hora, no momento e lugar errado. Para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E do medo de não agüentarem, caso um dia venham a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas sempre é confundido com ele por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias são adiadas; esperanças são mortas.

Um diferente medroso, este sim acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes entendem por que os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razões sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porquê de quem o agride.

O diferente pago sempre o preço de estar – mesmo sem o querer – alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente agüenta no lombo a ira do irremediavelmente igual, a inveja do comum, o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que sempre está certo.

O diferente começa a sofrer cedo, desde o primário, onde todos os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns professores por omissão (principalmente os mais grossos), se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial, em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em “ – puxa, fulano, como você é complicado”. O que é embrião de um estilo próprio em “ – Você está vendo como é que todo mundo faz?”

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações nos quais acaba transformando-se. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformam nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.

Diferente é o que: engorda mais um pouco; chora, onde outros xingam; estuda, onde outros burram. Quer, onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria, onde o hábito rotiniza. Sofre, onde outros ganham.

Diferente é o que: fica doente onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supunha. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala sempre nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer gol, porque gosta mais de jogar do que ganhar.

Diferente é o que aprendeu a superar o riso, o deboche, o escárnio e a consciência dolorosa de que a mídia é má, porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos; paralíticos; machucados; engordados; magros demais; bonitos demais; inteligentes em excesso; bons demais para aquele cargo; excepcionais: narigudos; barrigudos; joelhudos; de pé grande; feios; de roupas erradas; cheios de espinhas; os diferentes aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, ‘sendo’ muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. A estrela dos diferentes tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos que forem capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão os maiores tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois.

*** Letra traduzida da música postada

People Are Strange – The Doors

Pessoas são estranhas quando você é um estranho

Rostos olham feio quando você está sozinho

Mulheres parecem cruéis quando você é indesejado

Ruas são irregulares quando você está pra baixo

Quando você é um estranho, rostos saem da chuva

Quando você é um estranho, ninguém lembra seu nome

Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho

Pessoas ficam estranhas quando você é um estranho

Rostos olham feio quando você está sozinho

Mulheres parecem malvadas quando você é indesejado

As ruas são irregulares quando você está pra baixo

Quando você é um estranho, rostos saem da chuva

Quando você é um estranho, ninguém lembra seu nome

Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho

Pessoas ficam estranhas quando você é um estranho

Rostos olham feio quando você está sozinho

Mulheres parecem cruéis quando você é indesejado

As ruas são irregulares quando você está pra baixo

Quando você é um estranho, rostos saem da chuva

Quando você está estranho, ninguém se lembra de seu nome

Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho

Anúncios

3 Comentários »

  1. randajoan said

    Reblogged this on assinadoruiva.

  2. Olá! Li este texto pela 1ª vez em abril/1997 e nunca esqueci. Tem muito a ver comigo.
    Bj e muito obrigada,

RSS feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s