Vamos ficar empacados? – Balada do Louco – Mutantes

Vamos ficar empacados? (Simone Sá Pinto)

Fazia muito calor e decidi sair para dar uma volta. Como o sol estava intenso, optei por seguir uma estradinha. Era arborizada e dessa maneira eu obteria mais sombra.

Grande ilusão minha, o sol era tanto que as arvores estavam secas, mesmo assim continuei a caminhar olhar para o céu, observar os arredores, quando avistei ao longe um grupo de pessoas desesperadas falando sem parar ao mesmo tempo.

Como estava distante não podia identificar o que estava acontecendo e muito menos escutar o que diziam. Continuei a caminhar, porém dessa vez em direção a essas pessoas.

Quando cheguei ao local tomei conhecimento do que estava se passando. Tratava-se de um animal que puxava uma charrete e havia empacado no meio do caminho.

As pessoas as quais ele vinha puxando irritadas por não quererem caminhar por si, reclamavam sem parar. Falavam todas ao mesmo tempo e chamavam o animal de burro.

Um dizia: “Esse idiota desse burro empacou!” Outros dois tentavam empurrar o animal para ver se o mesmo andava. Outros reclamavam, pois teriam que andar e não poderiam mais ser carregados pelo animal.

E era tal de burro pra cá e burro pra lá, e empaca e desempaca, e empurra. Havia até uns que o chutavam com raiva.

Sinceramente não sei o que me deu. Aquela confusão toda, aquele calor, aquele sol, aquela gritaria foi me deixando fora do normal. Só sei que quando percebi havia gritado:

“- AFASTEM-SE TODOS JÁ DAÍ! SAIAM DE PERTO DELE! AGORA QUEM VAI RESOLVER ISSO SOU EU!!!!!!!!! FORAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

Até hoje me pergunto que surto foi esse… Sei que depois disso todos ficaram assustados. Uma doida berrando do nada! Ficaram com medo e saíram correndo isso sim…

Quando saíram, fui me aproximando dele. Ao chegar perto notei que estava amedrontado. Também pudera depois de ser tão rechaçado e chutado como estaria?

Dei um pouco da água que havia carregado comigo, ele foi se recuperando e se acalmando, acabou percebendo que eu não estava ali para tentar berrar em sua orelha e me deixou acariciá-lo.

Soltei a charrete bem como os antolhos (aquela coisa que faz o animal apenas olhar para frente) e todo o resto da parafernália.  Ufa, enfim o animal estava solto.

Agora podia ver o mundo a sua volta, não precisava mais carregar peso nas costas, e muito menos morrer de calor com toda aquela coisa.

E adiantou? Que nada. O animal coitado já fazia aquilo há tanto tempo que não sabia agora como iria andar livre. Não sabia como sequer se levantar, estava cansado por demais de tanto passar anos e anos naquela vida.

Sentei e comecei a conversar com ele. Disse que sim, talvez na vida fosse ser para sempre ser chamado de burro. Mas de que importaria isso? Importaria mesmo a sabedoria. A sabedoria de um animal que por anos carregou pessoas e escutou muitos assuntos e que agora com tudo isso poderia escolher o caminho da verdade.

“Caminho da verdade?” Perguntou-me o animal.

Eu disse: “Sim, imagine se nunca tivesse feito isso, se nunca tivesse ouvido toda essa gente falando. Você hoje na vida poderia reconhecer quem é verdadeiro de quem é falso? Tenho certeza que nas diversas viagens que fez, já escutou conversas de pessoas inteligentes onde aprendeu coisas, de pessoas que falaram mal umas das outras e depois fingiram ser amigas, de pessoas que disseram que não gostavam de alguma coisa e em seguida na outra viagem estavam fazendo exatamente aquilo que haviam dito que não gostavam. Estou mentindo?”

O animal respondeu: “Não, você tem toda razão, eu realmente escutei isso tudo e muito mais.”

Continuei: “Pois bem, de burro você não tem é nada. É inteligente. Agora o que tem a fazer uma vez que está livre é usar tudo o que aprendeu a seu favor. Ao invés de ficar aí deitado, se levantar e com o conhecimento que obteve ajudar a modificar o mundo por onde passar. Naquilo que estiver ao seu alcance é claro.

Nem sempre podemos fazer tudo que queremos, mas podemos fazer o mínimo, e esse mínimo por incrível que pareça já ajuda a mudar muita coisa. Agora ficar aí deitado não vai ajudar em nada isso é certo.

Pense comigo… Quantos animais devem estar sofrendo o mesmo que você sofreu por todos esses anos? Vai ficar aí parado ou vai fazer o seu mínimo para tentar mudar alguma coisa nessa situação?

Todos estavam aqui reclamando que não podiam andar. Bando de preguiçosos! Bastou, eu, uma mulher baixinha dar um berro que os grandalhões saíram todos correndo. E vão dizer que precisam de animal para puxá-los? Eles que aprendam a andar sozinhos. Estou errada?”

O burro calado apenas me escutava.

“Acontece meu amigo que nesse mundo onde estamos vivendo estão todos acostumados a ter tudo pronto. A serem puxados ao invés de lutar pelo o que desejam, a copiar a moda que é lançada, a assistir ao filme que todos assistem, a gostar de tudo que todos gostam. Se você tira os antolhos, anda livre, e é você mesmo é chamado de burro ou louco.

E nós vamos ficar empacados aqui ou vamos caminhar e fazer a nossa parte?

Se você quiser posso me deitar aqui do teu lado e ficamos aqui os dois. Ou podemos sair daqui e continuar a estrada e agradecer a cada um que nos chamar de burros e loucos, pois é sinal que não somos iguais a eles e estamos tentando fazer nosso mínimo para mudar. É você quem decide.”

E assim, o animal se levantou e resolveu seguir a estrada… Eu não estava mais sozinha.

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